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      <p>O livro re&#x00FA;ne os textos seleccionados das &#x00FA;ltimas Jornadas Internacionais de Idade M&#x00E9;dia, organizadas em Castelo de Vide, em Outubro de 2022. Entre os colaboradores do volume, h&#x00E1; diversos investigadores portugueses, mas sobretudo estrangeiros, com diferentes forma&#x00E7;&#x00F5;es acad&#x00E9;micas e provenientes de v&#x00E1;rias geografias historiogr&#x00E1;ficas. Mesmo das que s&#x00E3;o por c&#x00E1; menos lidas e divulgadas, como a turca e a alem&#x00E3;.</p>
      <p>O grande estaleiro urbano, como lhe chamava Jacques Le Goff, constitui o tema central deste livro. N&#x00E3;o tanto no plano da met&#x00E1;fora e da representa&#x00E7;&#x00E3;o, mas no sentido primeiro da express&#x00E3;o, que evoca a perman&#x00EA;ncia das actividades de constru&#x00E7;&#x00E3;o, o dinamismo, o tamanho e a organiza&#x00E7;&#x00E3;o dos estaleiros respectivos, ou o impacto deles nos ambientes urbanos. Nenhum destes aspectos ficou esquecido e disso d&#x00E1; boa conta a estrutura adoptada pelos editores, repartindo os textos por seis sec&#x00E7;&#x00F5;es complementares e sem desiquil&#x00ED;brios evidentes. Nela apenas faltou, talvez, uma maior aten&#x00E7;&#x00E3;o aos problemas do desenho e do planeamento urbano e aos programas de melhoria do espa&#x00E7;o p&#x00FA;blico e de constru&#x00E7;&#x00E3;o da cidade ideal, mais importantes para os finais da Idade M&#x00E9;dia.</p>
      <p>A primeira sec&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E1; dedicada aos rostos das contru&#x00E7;&#x00F5;es, aos mestres, aos pedreiros, carpinteiros e pintores. N&#x00E3;o tanto aos profissionais destas &#x00E0;reas no sentido moderno do termo, mas aos homens que dominavam aquelas pr&#x00E1;ticas e saberes. Nestes casos, como noutros, a identifica&#x00E7;&#x00E3;o de uma profiss&#x00E3;o &#x00FA;nica &#x00E9; frequentemente ilus&#x00F3;ria, criando um <italic toggle="yes">continuum</italic> artificial, quando a polival&#x00EA;ncia era a norma. Como insiste Philippe Bernardi no texto de abertura, as designa&#x00E7;&#x00F5;es profissionais s&#x00E3;o quase sempre o resultado de um olhar exterior, que n&#x00E3;o fazem justi&#x00E7;a &#x00E0; pluralidade de t&#x00E9;cnicas e de compet&#x00EA;ncias que estes homens dominavam, pelo menos at&#x00E9; que no s&#x00E9;culo XIV as corpora&#x00E7;&#x00F5;es introduzam alguma ordem nesta paisagem. Tal como no mundo rural, onde todos sabiam e faziam um pouco de tudo &#x2014;recorde-se Menocchio, que era &#x00AB;moleiro, carpinteiro, marceneiro, pedreiro e outras coisas&#x00BB; &#x005B;Carlo Ginzburg, <italic toggle="yes">O Queijo e os Vermes: O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisi&#x00E7;&#x00E3;o</italic> (S&#x00E3;o Paulo: Companhia das Letras, 1987), 39&#x005D;&#x2014; a diversidade profissional era de regra. O mesmo artes&#x00E3;o podia ser identificado de formas diversas, como certo pedreiro que era mercador de cal e de vinho, mas igualmente construtor de fontes. Nem mesmo os mestres, de m&#x00E9;ritos reconhecidos e que dirigiam equipas maiores, eram sempre nomeados como tal, como mostrou Clement Juarez para Toulouse. Outro tanto com os desenhadores e os pintores, que podiam surgir como supervisores e mestres de obra, ou controlar a produ&#x00E7;&#x00E3;o de vitrais. Como revelou Camille Larraz num estudo que traz outros dados sobre o faseamento das obras e o controlo destas pelos promotores, ou sobre o papel da confian&#x00E7;a e da palavra dada na rela&#x00E7;&#x00E3;o entre todos.</p>
      <p>Os mecanismos de provis&#x00E3;o e de financiamento das obras, de controle destas e dos seus custos, foram analisados a escalas diferentes e em cronologias diversas. Se a realidade de Val&#x00EA;ncia, com obras promovidas pelos principais poderes, que controlavam os gastos e o andamento dos trabalhos, por vezes atrav&#x00E9;s de maquetas &#x00E0; escala, tem pouco a ver com os fundos de cabana e com a dif&#x00ED;cil urbaniza&#x00E7;&#x00E3;o da Torres Novas crist&#x00E3;, ambos os casos atestam a import&#x00E2;ncia dos recursos locais e da reutiliza&#x00E7;&#x00E3;o dos materiais de constru&#x00E7;&#x00E3;o. Uma realidade id&#x00EA;ntica &#x00E0; de Munique, abastecida pelas barcas e madeiras que desciam o rio. As mesmas diferen&#x00E7;as de escala no financiamento das obras. Se C&#x00E1;diz, Val&#x00EA;ncia, ou Lisboa, tinham mais recursos e emitiam d&#x00ED;vida, ou contra&#x00ED;am empr&#x00E9;stimos, as dioceses inglesas de Exeter e de Norwich enfrentavam maiores dificuldades. A &#x00FA;ltima delas nem sequer tinha verbas apartadas para o efeito e registava os custos das obras entre as despesas correntes da institui&#x00E7;&#x00E3;o. Em M&#x00FA;rcia, o problema era outro e decorria da resist&#x00EA;ncia das igrejas de Orihuela em contribuir para as obras da catedral, finalmente consagrada em 1467. A oposi&#x00E7;&#x00E3;o fundava-se num privil&#x00E9;gio de Afonso X, que doara &#x00E0; cidade o ter&#x00E7;o da f&#x00E1;brica das igrejas, mas contava com o apoio do rei de Arag&#x00E3;o, pouco interessado em que as igrejas do reino financiassem a constru&#x00E7;&#x00E3;o de uma s&#x00E9; castelhana, apesar de pertencerem a essa diocese.</p>
      <p>A funda&#x00E7;&#x00E3;o e a reconstru&#x00E7;&#x00E3;o dos n&#x00FA;cleos urbanos s&#x00E3;o o tema seguinte. Com base nos m&#x00E9;todos da arqueologia da arquitectura, analisaram-se as pequenas cidades da Tosc&#x00E2;nia no contexto do encastelamento dos s&#x00E9;culos XI e XII. Quando se generalizaram na regi&#x00E3;o os povoados fortificados em altura e se divulgou a constru&#x00E7;&#x00E3;o em pedra, ainda que o uso desta nas constru&#x00E7;&#x00F5;es correntes de v&#x00E1;rios pisos seja j&#x00E1; de finais do s&#x00E9;culo XII. Estes casos definem um contraste significativo com as vilas bascas, que eram povoados abertos no s&#x00E9;culo XI, com vest&#x00ED;gios de forjas e de fundos de cabanas, num paralelo aliciante com a fase incial da Torres Novas crist&#x00E3;. Se Durango foi cercada por uma muralha no s&#x00E9;culo XII, Otxandio manteve-se um povoado aberto, apenas com uma torre com fosso e pali&#x00E7;ada nos arredores, erguida no contexto das disputas entre linhagens rivais. O impacto da conquista crist&#x00E3; nas cidades foi revisto por Manuel S&#x00ED;lvio Conde, que inventariou os bairros abandonados em Silves, M&#x00E9;rtola, Moura e Cacela, e as altera&#x00E7;&#x00F5;es no bairro da alc&#x00E1;&#x00E7;ova de Lisboa. Mas que insistiu, sobretudo, no desaparecimento da casa-p&#x00E1;tio e na sua substitui&#x00E7;&#x00E3;o pelo modelo da casa crist&#x00E3;. Ao contr&#x00E1;rio daqueles abandonos, estas transforma&#x00E7;&#x00F5;es foram mais demoradas, apenas documentadas no s&#x00E9;culo XIV. A lentid&#x00E3;o das altera&#x00E7;&#x00F5;es introduzidas na casa mer&#x00ED;nida de Alc&#x00E1;cer-Ceguer ap&#x00F3;s a conquista crist&#x00E3; do s&#x00E9;culo XV, primeiro com pequenos ajustes, para a adaptar depois ao modelo de casa e c&#x00E2;mara, parece atestar a morosidade destes processos.</p>
      <p>Os grandes estaleiros urbanos, motivados pela constru&#x00E7;&#x00E3;o e pela renova&#x00E7;&#x00E3;o de castelos, muralhas e portas, ou pela edifica&#x00E7;&#x00E3;o dos principais edif&#x00ED;cios religiosos, formam o tema das &#x00FA;ltimas sec&#x00E7;&#x00F5;es. Se partilham as dimens&#x00F5;es, ou os impactos nas paisagens urbanas, o ritmo das constru&#x00E7;&#x00F5;es e a forma como estas condicionavam o desenvolvimento das cidades n&#x00E3;o eram iguais. A amea&#x00E7;a de um conflito e as necessidades de defesa podiam reduzir os trabalhos a poucos anos. Foi o caso do castelo otomano de Elbasan, na actual Alb&#x00E2;nia, erguido em 1466 sobre as ru&#x00ED;nas de uma cidade romana, ou do forte castelhano de Salses, constru&#x00ED;do em finais do XV, ambos com recursos avultados e sistemas de controlo mais apertados. Pelo contr&#x00E1;rio, os trabalhos nas cercas urbanas, ou nas portas destas, podiam prolongar-se por mais tempo. Em Nevers, na Borgonha, a constru&#x00E7;&#x00E3;o da porta do Croux, integrando uma torre e uma ponte levadi&#x00E7;a de flecha, concluiu-se talvez entre 1393 e 1398, mas toda a estrutura foi objecto de repara&#x00E7;&#x00F5;es frequentes nos anos seguintes, como revelam os registos da cidade. Mais demorada, foi a muralha da vila baixa de Nice, s&#x00F3; acabada por meados do XIV. Esta constru&#x00E7;&#x00E3;o por etapas permitiu recuperar o modo como a muralha condicionava os arrabaldes, com as novas obras a cortar antigas hortas e a provocar a expuls&#x00E3;o de certas actividades para o exterior, ou a obrigarem &#x00E0; demoli&#x00E7;&#x00E3;o das casas adossadas. O impacto na paisagem n&#x00E3;o seria menor, &#x00E0; imagem das torres albarr&#x00E3;s que refor&#x00E7;avam as muralhas das cidades peninsulares, embora uma destas torres, a de Badajoz, fuja a esta tipologia e seja melhor identificada como uma torre-coura&#x00E7;a.</p>
      <p>O aspecto que melhor distingue as catedrais &#x00E9; a sua centralidade e visibilidade nas malhas urbanas, como bem sublinhou Lu&#x00ED;sa Trindade para as s&#x00E9;s portuguesas e Marie-Ange Causarano para a de Siena. Constru&#x00ED;das sobre antigos templos, em zonas palatinas, ou sobre as mesquitas aljamas, as catedrais portuguesas refor&#x00E7;avam aquela posi&#x00E7;&#x00E3;o com outros servi&#x00E7;os. A par do pa&#x00E7;o do bispo, era a&#x00ED; que se fazia o mercado e a feira, que se reuniam os tabeli&#x00E3;es e se localizavam os pa&#x00E7;os do concelho. Mais antigo, o complexo episcopal de Siena, j&#x00E1; com um hospital e um albergue no s&#x00E9;culo XI, era um dos p&#x00F3;los da cidade, que se articularia depois com os restantes. A partir de ent&#x00E3;o, o estaleiro da catedral funcionou quase em perman&#x00EA;ncia, com campanhas no XIII e em in&#x00ED;cios do XIV, ou com a decis&#x00E3;o de construir uma nova catedral em 1339. Que n&#x00E3;o seria conclu&#x00ED;da e que ficaria, desde 1357, como testemunho de uma constru&#x00E7;&#x00E3;o interrompida. N&#x00E3;o admira que traga novidades sobre a organiza&#x00E7;&#x00E3;o do estaleiro em &#x00E1;reas funcionais, o faseamento das obras, e, at&#x00E9;, o recurso a m&#x00F3;dulos de constru&#x00E7;&#x00E3;o padronizados, estes &#x00FA;ltimos talvez desde 1260.</p>
      <p>Os restantes edif&#x00ED;cios religiosos analisados tinham outra dimens&#x00E3;o. No arrabalde de Coimbra, as igrejas mal polarizavam as &#x00E1;reas envolventes, sendo escassas as constru&#x00E7;&#x00F5;es que delas dependiam, se bem que a natureza das fontes analisadas n&#x00E3;o seja a mais adequada para considerar estes problemas. N&#x00E3;o seria maior o impacto das pequenas casas mon&#x00E1;sticas dos arredores, embora as institui&#x00E7;&#x00F5;es apoiadas pelo rei, ou pela fam&#x00ED;lia deste, tivessem maiores disponibilidades e outra import&#x00E2;ncia. Tal como as mesquitas dos reinos de taifa do s&#x00E9;culo XI, recuperadas como espa&#x00E7;os escolares em mat&#x00E9;rias religiosas e profanas. Com professores pagos pelos alunos, as turmas espalhavam-se pelas galerias das mesquitas, facto que aumentava a desordem e o barulho e suscitava os protestos e as reclama&#x00E7;&#x00F5;es dos fi&#x00E9;is e de alguns letrados. Sinal evidente da vida que animava estes edif&#x00ED;cios, ou pulsava em torno deles, assim como da transmiss&#x00E3;o de saberes e de compet&#x00EA;ncias, t&#x00E3;o importante em espa&#x00E7;o urbano.</p>
      <p>N&#x00E3;o faltam motivos de interesse neste livro, dada a coer&#x00EA;ncia do conjunto e a riqueza dos v&#x00E1;rios contributos. A fazer dele uma refer&#x00EA;ncia obrigat&#x00F3;ria, mormente para quem se interessa pelas actividades de constru&#x00E7;&#x00E3;o e pelos estaleiros das cidades.</p>
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